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sexta-feira, setembro 26, 2003

Alcochete 

Nunca tinha ido a Alcochete. Não! Tirando o Rochemback não vi mais ninguém do Sporting.
É uma terra muito simpática, a comida é muito boa e tem um aspecto que eu dou muita importância: Vista dali, Lisboa parece que fica do outro lado do Oceano!
Mas o que é bom, depressa se acaba e Alcochete não vai demorar muito a ser invadida por desterrados como eu, que inevitavelmente vão acabar com a pitoresca paisagem envolvente. É pena, mas inevitável.

Luis Vaz de Camões 

Antes de mim, já Camões eternizara um desterrado:
- Ovídio o Sulmonense.
O poema não é que esteja mal, mas Ovídio? Sulmonense?
Tanto desterrado por aí e Camões foi eternizar um monense do Sul? Apenas para não dizerem que nada, o Instituto Camões informa-nos:

Ovídio, poeta latino, contemporâneo de Augusto e Virgílio, era de Sulmona e foi desterrado para o Ponto, na costa do Mar Negro, perto da foz do Danúbio

Fica aqui um trecho:

"O sulmonense Ovídio, desterrado
Na aspereza do Ponto, imaginando
Ver-se de seus parentes apartado;
Sua cara mulher desamparando,
Seus doces filhos, seu contentamento,
De sua pátria os olhos apartando;
Não podendo encobrir o sentimento,
Aos montes e às águas se queixava
De seu escuro e triste nascimento."

Sexta-feira! 

Nunca lhe tive tanto respeito como agora!
Estou quase a fazer-me à via dos desterrados, mas ainda tenho ultrapassar perigosamente as dezenas de tractores de tomates que vou encontrar fatalmente até Vila Franca.
Já só consigo pensar nos meus filhos e na minha mulher.
Hoje, finalmente o meu filho mais velho vai acreditar em mim, já que desde segunda-feira que lhe ando a dizer que estou quase a chegar.
A chegada a casa é sempre um pouco conturbada:
Estarei exausto de andar a 100 km/h na esquerda, a um palmo do desterrado da frente e a dois dedos do desterrado de trás, mas ao abrir a porta de casa e enquanto associo as minhas noções de família e descanso, levo com a minha mulher a fazer as perguntas todas de uma vez, o meu filho mais velho a gritar aos meus ouvidos que tenho que brincar com ele durante “muito tempo” e o mais novo que ainda não diz coisa com coisa a levantar-me os braços e a perguntar: - Estás à espera de quê para pegares em mim?
Estarei em casa, quem me dera nunca mais de lá saír.

Como fui informado do desterro! 

Quando me disseram que tinha que vir para Lisboa, o meu cérebro parou!
- Lisboa? - perguntei ainda paralisado do nariz para cima.
- Prepara-te para o efeito!
- Preparo-me para o efeito? Preparo-me para o efeito? Mas que raio de consolo é esse, carago? Trabalho sem aumento há dois anos, tenho dois filhos ainda com fetiches pelos seios da minha mulher, sou tripeiro desde que me tornei sócio e está-me a dizer que eu tenho que me preparar para o efeito? Só isso? Tenho que ir para Lisboa, capital de Portugal continental, ilhas autónomas e Berlengas?
(Esta parte não foi dita mas sim pensada, porque se o meu cérebro voltou a funcionar, todo o meu instrumento vocal não me obedecia!). O que eu disse é o que vem a seguir:
- SSSim! - Usei toda a capacidade do diafragma e saí. Breves instantes volvidos estava a bater novamente na porta do meu chefe:
- Chefe?
- Ainda estás aqui? Não te disse que ias lá para baixo?
- Pois, mas Lisboa não é o que se possa chamar propriamente uma aldeia familiar. Será que me poderia informar para que zona de Lisboa eu vou?
- Ah! Vou telefonar à administração para ver se te posso dizer isso!
(Passados alguns instantes)
- Oh rapaz! Vais para Porto Alto!
Os meus olhos reviraram de alegria e o meu cérebro deve ter parado mais uma vez. Saí dali sem mais demoras, ia continuar a trabalhar no Porto. Era no Porto Alto, mas que porra, a crise anda à caça e não se pode ser assim tão esquisito. Quando voltei a ter alguma capacidade de raciocínio, voltei para trás e fui bater outra vez à porta do meu chefe.
- Chefe?
- Já estou farto de te ver, carago! Já me fizeste perder duas vezes no pinball. O que é que tu queres agora?
- Onde é que é Porto Alto?
Escusado será dizer que fui corrido ao palavrão.

2 Semanas já lá vão! 

Ainda não me considero um desterrado de corpo e alma.
Às segundas ainda faço a via dos desterrados de gás à tábua e chego bem cedo para não me apartarem. Acho que mais semana menos semana, vou parecer um tractor de tomates a inquinar o trânsito para a ponte de Vila Franca.

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